quinta-feira, 7 de maio de 2015

Imigração de árabes engrossam fileiras de refugiados pelo mundo

Conflitos e guerras no oriente médio espalham comunidade árabe por diversos continentes

Após a 2ª grande guerra mundial, a criação do Estado de Israel provocou imensa polêmica na região do oriente médio, e a partir disso, intensificaram-se os embates entre Palestinos e árabes na primeira metade do século XX.

Anos mais tarde, o mundo árabe sofreria uma verdadeira sacudida, a revolução Islâmica no Irã no fim da década de 1970, quando o então Aiatolá Khomenini subiu ao poder e destituiu o governo pró-ocidente de Xá Reza Palahvi, crescentes conflitos e insurreições populares surgiram em muitas nações.

Mesquita localizada no Bairro do Brás (Foto: Ronaldo Lages)
Um pouco mais tarde, dois países vizinhos muito influentes na região disputariam uma batalha sangrenta. O conflito que ficou conhecido como ‘Guerra Irã e Iraque’ teria seu começo em 1980 e só terminaria 8 anos depois, deixando inúmeros mortos e feridos entre civis e militares de ambos os lados.

Na mesma década, a então União Soviética ocuparia o Afeganistão e dali sairia derrotada no fim de seu já combalido regime.

Não somente esses conflitos, como também muitos outros forçariam milhões de cidadãos árabes a fugir de seus países e se refugiarem em continentes próximos.

A Europa, que já tinha seu imenso histórico de explorações no norte da África, recebeu e recebe milhares de imigrantes todos os anos, por exemplo, os argelinos na França que hoje possui a maior população de imigrantes árabes.

 A Mesquita foi  fundada em 1980        (Foto: Ronaldo Lages)
As já citadas guerras engrossariam a massa refugiada ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Esses foram alguns dos fatores que também colaboraram para a crescente onda de preconceito da comunidade europeia em relação aos imigrantes na Europa e causaria um possível sentimento de revanchismo.

E é isso, o que esclarece o cientista político e vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe (Ícarabe) José Farhat. “É evidente, principalmente quando se fala em países africanos, cujas fronteiras foram feitos de acordo com os interesses da França, existe um revanchismo por parte dos povos, não por parte dos governantes, porque os atuais governantes são a favor desses interesses.”

No Brasil, o clima é cordial, o povo brasileiro recebe muito bem os imigrantes estrangeiros em geral, exemplo disso, é o Libanês Said Fared de 43 anos e que reside há 16 por aqui. Para ele, a comunidade árabe é respeitada e vista como irmã e cidadã em nosso país. Entretanto, em outros lugares, só há respeito de acordo com a função que a pessoa desempenha naquela sociedade. “Os árabes na Europa sofrem um pouco de preconceito porque consideram nações terroristas, essas coisas, mas acho que não existe revanchismo. Entretanto, existem dois tipos de árabes por lá: os estudantes, que estão com o objetivo de estudar e conhecer as universidades. Geralmente, os europeus têm preconceito em relação a todos os imigrantes, não somente os árabes. Tenho muitos parentes que moram em países do velho continente e me contam que o tratamento que o Brasil dá em relação ao estrangeiro é diferente, aqui você se sente como brasileiro. Somos sempre bem-vindos, respeitados e bem-tratados”.

A primavera árabe trouxe mudanças positivas para o mundo árabe. De acordo com o cientista político José Farhat, o povo ainda é decisivo em prol de mudanças, nem que sejam a logo prazo nesses países. ”A primavera árabe teve sucesso no Egito, mas ainda tem reações, há poucas semanas atrás invadiram mesquitas, mataram gente, mas isso é uma reação a favor do regime anterior. Contudo, se não deu certo, por exemplo, na Síria, não significa que o povo não continue a lutar por ela. A primavera árabe não convém às potências ocidentais e dos Estados Unidos, estão sempre tentando derrubar tudo aquilo que é libertação nacional. Isso é claramente nítido”.

Reprodução da capa do polêmico Charlie Hebdo
A estudante de Direito e de família egípcia, Sanny Mohamed, viajou até o Egito e trouxe algumas de suas impressões sobre o pós-revolução, que segundo ela, mostrou a força da união, mas que também serviu de manobra política por parte de certos setores da elite daquele país. “A primavera árabe surgiu como um efeito dominó. Mostrou a força que um povo tem quando unido, só que no Egito não foi tão positiva, lá se cogita que a população tenha sido meramente usada pelos militares, da seguinte forma: Hosni Mubarak já havia escolhido seu filho para sucedê-lo, entretanto, este não era militar, isso gerou insatisfação por parte dos militares que fomentaram as primeiras revoltas que a população aderiu. O presidente que assumiu após Mubarak, Mohamed Mursi, também foi derrubado. No meu ponto de vista, a Primavera árabe ainda não rendeu flores”.

Com o atentado terrorista ao jornal francês Charlie Hebdo, as polêmicas se intensificaram, a xenofobia cresceu em muitos lugares da Europa. Apesar dos manifestos em prol da liberdade de imprensa, o jornal não teria avançado o sinal do bom-senso em relação à comunidade árabe? Neste ponto de vista, a estudante aponta possíveis erros de ambos os lados. “Acho que o direito de expressão deve ser respeitado, embora alguns tenham ferido crenças e religiões. Acho que isso não deve ser levado tão a serio pelos muçulmanos ao ponto de fomentar ainda mais esse ódio. Como muçulmana eu me senti ofendida, mas não cabe a nós muçulmanos aplicarmos tal sentença, uma retratação do jornal seria suficiente. Claro, deve haver um limite, mas um limite imposto talvez pelo próprio jornal, um pouco de bom senso, pois é complicado falar em limites quando se trata de liberdade de expressão. Os muçulmanos mais moderados não aprovaram os assassinatos, porque o caminho mais coerente é o diálogo.”

Capa da 1ª edição após o atentado (Charlie Hebdo)
O cientista político José Farhat vê com maior preocupação o episódio. Segundo ele, deve existir liberdade e respeito em relação a todas as religiões que existem. “A imagem para o Islã é algo criado por Deus, só quem criou o ser humano e sua imagem foi Deus, qualquer coisa relacionada a uma imagem significa se igualar a ele. Não existem representações humanas na arte religiosa islâmica porque Maomé aboliu antigos deuses e os abominou. Isso para o Islã é absolutamente inaceitável”.

Entretanto, Farhat, alerta: toda xenofobia em torno dos árabes na Europa é uma questão muito mais econômica do que religiosa. “A França na realidade não está perseguindo o muçulmano por ser ‘muçulmano’, estão perseguindo o trabalhado: argelinos, marroquinos, tunisianos, africanos ou asiáticos por estarem concorrendo hoje com o trabalhador francês, é uma questão econômica. Quando a economia francesa estava bem, independente de religião, não queriam nem saber de nada, chamavam os imigrantes para trabalhar. A questão não é muito religiosa, é muito mais econômica”.

Os conflitos e impasses são muitos, e neste exato momento estima-se que mais de 50 milhões de refugiados de diversas nacionalidades estão à deriva aguardando resposta de governos e instituições políticas até que alternativas sensatas sejam tomadas por elas.


Ronaldo Lages

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