Conflitos e guerras no
oriente médio espalham comunidade árabe por diversos continentes
Após a 2ª grande guerra
mundial, a criação do Estado de Israel provocou imensa polêmica na região do
oriente médio, e a partir disso, intensificaram-se os embates entre Palestinos
e árabes na primeira metade do século XX.
Anos mais tarde, o mundo
árabe sofreria uma verdadeira sacudida, a revolução Islâmica no Irã no fim da
década de 1970, quando o então Aiatolá Khomenini subiu ao poder e destituiu o
governo pró-ocidente de Xá Reza Palahvi, crescentes conflitos e insurreições
populares surgiram em muitas nações.
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| Mesquita localizada no Bairro do Brás (Foto: Ronaldo Lages) |
Um pouco mais tarde, dois
países vizinhos muito influentes na região disputariam uma batalha sangrenta. O
conflito que ficou conhecido como ‘Guerra Irã e Iraque’ teria seu começo em
1980 e só terminaria 8 anos depois, deixando inúmeros mortos e feridos entre
civis e militares de ambos os lados.
Na mesma década, a então
União Soviética ocuparia o Afeganistão e dali sairia derrotada no fim de seu já
combalido regime.
Não somente esses conflitos,
como também muitos outros forçariam milhões de cidadãos árabes a fugir de seus
países e se refugiarem em continentes próximos.
A Europa, que já tinha seu
imenso histórico de explorações no norte da África, recebeu e recebe milhares
de imigrantes todos os anos, por exemplo, os argelinos na França que hoje
possui a maior população de imigrantes árabes.
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| A Mesquita foi fundada em 1980 (Foto: Ronaldo Lages) |
As já citadas guerras
engrossariam a massa refugiada ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Esses
foram alguns dos fatores que também colaboraram para a crescente onda de
preconceito da comunidade europeia em relação aos imigrantes na Europa e
causaria um possível sentimento de revanchismo.
E é isso, o que esclarece o
cientista político e vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe (Ícarabe)
José Farhat. “É evidente, principalmente
quando se fala em países africanos, cujas fronteiras foram feitos de acordo com
os interesses da França, existe um revanchismo por parte dos povos, não por
parte dos governantes, porque os atuais governantes são a favor desses
interesses.”
No Brasil, o clima é
cordial, o povo brasileiro recebe muito bem os imigrantes estrangeiros em
geral, exemplo disso, é o Libanês Said Fared de 43 anos e que reside há 16 por
aqui. Para ele, a comunidade árabe é respeitada e vista como irmã e cidadã em
nosso país. Entretanto, em outros lugares, só há respeito de acordo com a
função que a pessoa desempenha naquela sociedade. “Os árabes na Europa sofrem um pouco de preconceito porque consideram
nações terroristas, essas coisas, mas acho que não existe revanchismo.
Entretanto, existem dois tipos de árabes por lá: os estudantes, que estão com o
objetivo de estudar e conhecer as universidades. Geralmente, os europeus têm
preconceito em relação a todos os imigrantes, não somente os árabes. Tenho
muitos parentes que moram em países do velho continente e me contam que o
tratamento que o Brasil dá em relação ao estrangeiro é diferente, aqui você se
sente como brasileiro. Somos sempre bem-vindos, respeitados e bem-tratados”.
A primavera árabe trouxe
mudanças positivas para o mundo árabe. De acordo com o cientista político José
Farhat, o povo ainda é decisivo em prol de mudanças, nem que sejam a logo prazo
nesses países. ”A primavera árabe teve
sucesso no Egito, mas ainda tem reações, há poucas semanas atrás invadiram
mesquitas, mataram gente, mas isso é uma reação a favor do regime anterior.
Contudo, se não deu certo, por exemplo, na Síria, não significa que o povo não
continue a lutar por ela. A primavera árabe não convém às potências ocidentais
e dos Estados Unidos, estão sempre tentando derrubar tudo aquilo que é
libertação nacional. Isso é claramente nítido”.
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| Reprodução da capa do polêmico Charlie Hebdo |
A estudante de Direito e de
família egípcia, Sanny Mohamed, viajou até o Egito e trouxe algumas de suas
impressões sobre o pós-revolução, que segundo ela, mostrou a força da união,
mas que também serviu de manobra política por parte de certos setores da elite
daquele país. “A primavera árabe surgiu
como um efeito dominó. Mostrou a força que um povo tem quando unido, só que no
Egito não foi tão positiva, lá se cogita que a população tenha sido meramente usada
pelos militares, da seguinte forma: Hosni Mubarak já havia escolhido seu filho
para sucedê-lo, entretanto, este não era militar, isso gerou insatisfação por
parte dos militares que fomentaram as primeiras revoltas que a população
aderiu. O presidente que assumiu após Mubarak, Mohamed Mursi, também foi
derrubado. No meu ponto de vista, a Primavera árabe ainda não rendeu flores”.
Com o atentado terrorista ao
jornal francês Charlie Hebdo, as polêmicas se intensificaram, a xenofobia
cresceu em muitos lugares da Europa. Apesar dos manifestos em prol da liberdade
de imprensa, o jornal não teria avançado o sinal do bom-senso em relação à
comunidade árabe? Neste ponto de vista, a estudante aponta possíveis erros de
ambos os lados. “Acho que o direito de
expressão deve ser respeitado, embora alguns tenham ferido crenças e religiões.
Acho que isso não deve ser levado tão a serio pelos muçulmanos ao ponto de
fomentar ainda mais esse ódio. Como muçulmana eu me senti ofendida, mas não
cabe a nós muçulmanos aplicarmos tal sentença, uma retratação do jornal seria
suficiente. Claro, deve haver um limite, mas um limite imposto talvez pelo
próprio jornal, um pouco de bom senso, pois é complicado falar em limites
quando se trata de liberdade de expressão. Os muçulmanos mais moderados não
aprovaram os assassinatos, porque o caminho mais coerente é o diálogo.”
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| Capa da 1ª edição após o atentado (Charlie Hebdo) |
O cientista político José
Farhat vê com maior preocupação o episódio. Segundo ele, deve existir liberdade
e respeito em relação a todas as religiões que existem. “A imagem para o Islã é algo criado por Deus, só quem criou o ser
humano e sua imagem foi Deus, qualquer coisa relacionada a uma imagem significa
se igualar a ele. Não existem representações humanas na arte religiosa islâmica
porque Maomé aboliu antigos deuses e os abominou. Isso para o Islã é
absolutamente inaceitável”.
Entretanto, Farhat, alerta:
toda xenofobia em torno dos árabes na Europa é uma questão muito mais econômica
do que religiosa. “A França na realidade
não está perseguindo o muçulmano por ser ‘muçulmano’, estão perseguindo o
trabalhado: argelinos, marroquinos, tunisianos, africanos ou asiáticos por
estarem concorrendo hoje com o trabalhador francês, é uma questão econômica.
Quando a economia francesa estava bem, independente de religião, não queriam
nem saber de nada, chamavam os imigrantes para trabalhar. A questão não é muito
religiosa, é muito mais econômica”.
Os conflitos e impasses são
muitos, e neste exato momento estima-se que mais de 50 milhões de refugiados de
diversas nacionalidades estão à deriva aguardando resposta de governos e
instituições políticas até que alternativas sensatas sejam tomadas por elas.