Avalanche de exposições batem recordes de visitas em museus

Coleção com obras de Pablo Picasso e pintores modernistas espanhóis dá continuidade ao ciclo de grandes amostras de arte no país.

Imigração de árabes engrossam fileiras de refugiados pelo mundo

Conflitos e guerras no oriente médio espalham comunidade árabe por diversos continentes.

Seca obriga paulistanos a criar formas criativas para captação de água

Pano para coar água da calha e balde debaixo do telhado são algumas das táticas inventadas. Especialistas alertam os riscos dessa captação precária e dão dicas para um armazenamento seguro.

Redes sociais como novo conceito para política

A cada eleição, a internet tem sido utilizada como uma potente ferramenta a fim de se propagar ideias e fazer marketing político.

Empreendedorismo cresce entre universitários

Pessoas de várias idades têm buscado o caminho do empreendedorismo para sobreviver no mercado de trabalho e pôr em prática suas ideias.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Handebol feminino do Brasil quer medalha de ouro inédita em olimpíada

A equipe é atual Campeã Mundial da modalidade. O time conquistou o título inédito em 2013 ao vencer a Sérvia e quer superar a campanha dos Jogos Olímpicos de Londres 2012, quando ficou em sexto lugar, o que representa a melhor colocação do Brasil na história dessa modalida.

O time é comandado pelo técnico dinamarquês, Morten Soubak, e conta também com jogadoras de reconhecimento internacional: Alexandra Nascimento e Duda Amorim, ambas eleitas melhores do mundo em 2012 e 2014, respectivamente. 




Duda Amorim, campeã do Mundial de Handebol em 2013, escolhida melhor atleta do torneio e eleita a melhor jogadora do mundo em 2014
Créditos: Marcelo Camargo / Agência Brasil


Confira a matéria especial do repórter Vander Felipe sobre a preparação do handebol brasileiro para os Jogos Olímpicos de 2016 e atual situação do esporte no Brasil.




segunda-feira, 11 de maio de 2015

Redes sociais como novo conceito para política

A cada eleição, a internet tem sido utilizada como uma potente ferramenta a fim de se propagar ideias e fazer marketing político

Dificilmente alguém não está em pelo menos uma rede social. Seja Facebook, Twitter, Linkedin ou Instagram. E a política também se apropriou desse meio de interação social.

Para o professor, filósofo e educador, Mário Sérgio Cortella, “existem pessoas que dizem que não se metem em política. Ao dizer isso, já é um ato político. Não existe um ser racional que não pratique política”, afirmou Cortella, que também explicou que “você faz política o tempo todo. Ao cumprimentar algumas pessoas, ao escolher um local para frequentar, ao escolher com quem você quer se relacionar, sua relação no trânsito, o destino que você quer dar a isso ou aquilo, tudo isso é política. São tomadas de decisões. O que é diferente de partido. Tem gente que tem partido, outros não, mas política todo mundo faz”, emendou o professor.

Um estudo realizado pelo instituto norte-americano de análises, Pew Research Center, revelou que as redes sociais motivam usuários a participarem de atividades políticas.


Para o filósofo Mário Sérgio Cortella, as redes sociais são importantes para o debate político (Foto/Adriana Santana)

Com base em entrevistas com 2.255 adultos do país, a pesquisa concluiu que sites como Facebook, Twitter e Linkedin ajudam na hora de fazer amigos e se engajar em ações em prol do bem comum.

Ainda de acordo com o estudo, as redes sociais têm motivado cada vez mais usuários a participarem de movimentos com finalidade política. Para 57% dos entrevistados, redes como Twitter e Facebook influenciam internautas a tentarem mudar o voto ou opinião de amigos virtuais.

Em São Paulo, o governador Geraldo Alkmin, do PSDB, assim como o prefeito da capital paulista Fernando Haddad, do PT, e secretarias importantes utilizam os mecanismos oferecidos na web para se aproximarem do eleitorado, o que na opinião do escritor Mário Sérgio Cortella, autor do livro “Política para não ser idiota”, junto com o também filósofo Renato Janine Ribeiro, acredita que não só a população deve usar o ambiente virtual para discutir política, mas as autoridades também devem ter a percepção da importância desse espaço. “O político ou a política que tiver inteligência será capaz de prestar atenção. Esquecer esse pedaço (as ferramentas das redes sociais) é uma prática tola. É necessário olhar para os dois lados, para a cidade e para os seus gestores”, analisa Cortella.

As redes sociais se tornaram verdadeiras vitrines para quem deseja saber o que acontece na vida de um político. Por outro lado, também é uma importante ferramenta para compreender o que os eleitores estão pensando das atitudes oficiais. Esse meio de comunicação passou a ser considerado como um termômetro do que a população exige ou deseja fazer.

Dayane Manfrere, especialista em mídias sociais, acredita que as redes podem criar imagens positivas dos ocupantes dos cargos públicos. “As redes sociais nasceram para interligar as pessoas. O político pode ter um relacionamento aparentemente pessoal com seu público, respondendo mensagens e interagindo com o público em tempo real, o que passa a impressão de ser uma conversa direta como eu e você”, frisou Dayane.

Mário Sérgio Cortella, que também foi Secretário da Educação na cidade de São Paulo entre os anos de 1991 e 1992, na gestão da prefeita Luiza Erundina, acredita no potencial político das ferramentas sociais na web, porém longe do ideal. “As redes sociais possuem potencial, mas ainda muito inicial. Uma parte das pessoas se contenta em dar um like (curtir) ao invés de participar ou de agir. Portanto, fica apenas no nível da consciência. Mas poderá ter na medida em que conecta, em que se junta as pessoas em torno disso”, frisou o filósofo.

Então analisamos o Twitter e o Facebook de algumas Secretarias do Estado de São Paulo como a de Segurança Pública, Meio Ambiente, Transportes e Esportes. Os perfis são usados como instrumentos de marketing, que sempre divulgam notas positivas sobre as ações do governo.

Percebe-se também a ausência de interação entre a população e o político. Não existe um debate ou uma discussão de ideias entre eles. “Acredito que eles usam pouco. Poderiam usar mais para eu conhecer mais. Acredito que falta um pouco mais de posicionamento para sabermos o que eles estão fazendo. Isso pode melhorar”, é o que diz Keliane Leal, 29, auxiliar de secretaria e antenada na política brasileira.

Keliane, em alguns momentos, utiliza o facebook para expor a sua opinião. E deixa claro o seu posicionamento político. No entanto, ela não vê uma interação de seus amigos virtuais. “Algumas pessoas vão lá e colocam suas opiniões, mesmo que sejam contrárias. Mas a maioria (dos amigos do facebook) ignora, elas não discutem os temas”, finaliza Keliane.

Quando algum fato polêmico está em pauta ninguém perde tempo e recorre aos canais oficiais para cobrar mudanças e respostas. Mas parece que as redes são controladas por robôs. O clima é de certo modo monótono.

Com exceção da secretaria municipal de cultura que contém um grande número de fotografias de eventos, não somente os oficias, mas também, os que são relevantes.

Para a especialista em mídias sociais, Dayane Manfrere, o fato dos políticos serem ausentes das redes sociais faz parte do jogo político, pois esse mecanismo é utilizado como um meio para propaganda eleitoral. “A equipe de marketing é feita para vender o político”, pontua Dayane.

O filósofo e professor, Mário Sérgio Cortella, entende que há atualmente uma recusa da população ao modo arcaico de se fazer política, o que pode ser alienação ou um ato político. “Será alienação se for desconectado da realidade ou um mero fingimento. Será uma proposta política se for um dizer não ao modo arcaico de se fazer política, que sendo feito nas redes sociais ganharia uma outra natureza”, finalizou o professor.

Vander Felipe

Ouça um trecho da entrevista com Mário Sérgio Cortella e Keliane Leal


sábado, 9 de maio de 2015

Seca obriga paulistanos a criar formas criativas para captação de água

Pano para coar água da calha e balde debaixo do telhado são algumas das táticas inventadas. Especialistas alertam os riscos dessa captação precária e dão dicas para um armazenamento seguro

A crise hídrica está castigando o Sudeste e obrigando os paulistas a experimentar um pouco do sofrimento de quem vive a seca. Muitas pessoas ainda não entenderam a gravidade do problema e o quão importante é economizar e armazenar a água que ainda conseguimos.

O criador do site Sempre Sustentável e professor e construtor de mini cisternas Edison Urbano, explica o porquê é necessário utilizar outras formas de captação de água, “como os reservatórios que abastecem a cidade estão com os níveis muito baixos, usar a água da chuva vai ajudar a preservar para a época de estiagem”, afirmou.

Mini cisterna construída por Edison Urbano (Foto: Celina Oliveira)

No entanto, para outros a ficha caiu e para poder passar por essa fase ruim, muitas pessoas estão dando um “jeitinho brasileiro” e buscando diversas formas criativas de captação de água da chuva.

A aposentada Maria, de 56 anos, por exemplo, não pode ver o tempo fechando que já coloca os baldes do lado de fora para poder aproveitar cada pinguinho. “Eu costumo captar a água que cai no telhado. Eu ponho uma calha com um pano para coar e deixo cair em um balde ou tambor”, disse Maria.

Apesar de ser uma das maneiras mais comuns, talvez não seja a mais correta ou segura. O Professor Edison Urbano, também comentou sobre a gravidade de utilizar essa técnica de captação, “isso infelizmente muita gente está fazendo, mas não é correto, é até prejudicial para o meio ambiente e para saúde pública”, explicou.

É importante utilizarmos a água com os cuidados necessários e se lembrar de que a primeira chuva que caí na telha deve sempre ser descartada, porque pode estar contaminada.

O presidente da Associação Paulista de Empresas de Consultoria e Serviços em Saneamento e Meio Ambiente (Apecs), Luiz Roberto Gravina Pladevall, traz outros alertas importantes sobre a utilização da água que for captada. “Esta água que vai ser armazenada não pode ser utilizada para consumo humano, beber ou cozinhar, apenas para usos não nobres”, ressaltou.

Para ajudar quem quer fazer a reutilização da água, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), criou um manual para montagem de sistema de captação de água da chuva. Nesta cartilha encontramos dicas, como, descartar a água contaminada que fica no telhado da casa. Outra dica é fazer a filtragem dessa água. O acesso a esse manual é gratuito e pode ser encontrado no site do IPT.

Captação de água potável

No caso de água potável, a alternativa mais conhecida é o poço artesiano. Entretanto, pode não ser tão fácil, visto que as medidas exigidas para a construção de um poço tornam o processo burocrático. Além de precisar de uma licença que pode demorar até um ano para sair. São consideradas questões ambientais, urgência para o uso da água, localização e sistemas ativos de abastecimento público nas proximidades do local.

Deve se levar em conta que apesar das águas de poços artesianos colaborarem para passar essa fase de crise hídrica, os cuidados que se deve ter são grandes também. Porque a água de poços de baixa profundidade ou sem acompanhamento não pode ser ingerida. É necessário um responsável técnico pela análise clínica e outro para garantir que a água é potável.

Roberto Pladevall, alertou ainda que o uso errado da água é muito sério, e quem não pode captar água potável por meio de poços deve continuar usando fontes confiáveis, “ a recomendação é o seguinte, utilize água da concessionária, que é uma água com todos os padrões de qualidade exigidos, ou se compra água mineral”, finalizou.

Como vimos, existem algumas maneiras de captar água para fins nobres e não nobres, mas todos eles necessitam de cuidados. A água é um bem de toda a humanidade e sem ela não existe vida. O dever de cuidar, economizar e preservar é de todos nós.



Celina Oliveira

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Avalanche de exposições batem recordes de visitas em museus

Coleção com obras de Pablo Picasso e pintores modernistas espanhóis dá continuidade ao ciclo de grandes amostras de arte no país

Nos últimos anos o Brasil recebeu uma enxurrada de exposições e amostras de arte, parece que finalmente o país é parte da rota obrigatória dos grandes pintores. Nesta leva, o holandês Escher pousou por aqui em no ano de 2012 com sua obra tridimensional e com recursos de ilusão de ótica.

Mais tarde, seria a vez dos impressionistas, quadros dos renomados Van Gogh, Degas, Cézzane, Monet e muitos outros levaria apreciadores e iniciantes no mundo das artes a passar à noite na fila em frente ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

As heranças renascentistas do ocidente também apareceriam por aqui com famosos quadros e esboços de Leonardo da Vince, Rafael e Ticiano.

Fila de espera para ver exposição (Foto: Ronaldo Lages)
A japonesa Yayoi kusama teria sua exposição disputada a tapas pelos espectadores, filas enormes dariam volta ao redor do prédio do Instituto Thomie Othake no bairro de Pinheiros.

No mesmo espaço, este ano, ilustrações, quadros, peças publicitárias e capas de revista protagonizadas por Salvador Dalí também seriam expostas com sucesso e ampla divulgação nos meios de comunicação.

Neste momento, um ciclo se completa, pois mais uma amostra de sucesso acontece, Pablo Picasso e a Modernidade Espanhola que chegou ao Centro Cultural Banco do Brasil. Novamente as filas se formaram para ver o legado das estrelas do mundo da arte.

E isso o que nos fala a historiadora em arte Gisela Dias, que havia acabado de ver a exposição e ficou impressionada com a diversidade de obras. Segundo ela, a amostra passou por muitas fases, não ficou apenas no cubismo, por isso, seu interesse nos artistas espanhóis. “O legal é que ele não foi apenas um artista que transitou desde as tendências mais clássicas até a modernidade e o expressionismo. E tem também artistas de outros lugares como da América Latina, e aqueles que fizeram parte do período conflituoso da guerra civil espanhola”.

Contudo, uma questão fica: as pessoas têm se interessado mais por arte nos últimos anos ou apenas seria movido pelo efeito da internet e dos demais meios de comunicação? “Minha percepção é a de que as pessoas estão começando a apreciar arte, talvez pelo fato de estarem vindo para São Paulo amostras de artistas renomados e que acabam por incentivar muitas pessoas. Acho que começou a cair no gosto, mas tem aqueles que com certeza são influenciados porque há uma propagação muito grande da mídia e é bonito dizer para os outros que você frequenta exposições”.

 Reprodução da obra: O pintor e a modelo, 1963

Os espectadores enfrentavam a fila que se estendia vários quarteirões embaixo do sol na rua Álvares Penteado, na região central da capital paulista. Dentre as pessoas que estavam ali, muitas pela primeira vez para ver uma exposição de arte, era o caso de Cristina Fanny, de 43 anos, que veio por influência da filha Camila de 17. “Estou bem ansiosa, é a primeira vez que eu venho até o CCBB e conheci as obras por intermédio da minha filha que estuda”.

Já Camila diz que a mãe faz companhia e que é fã do quadro “Guernica” que não estava exposto. “É muito importante gostar de arte, faz parte da cultura e fico contente por minha mãe ter passado a gostar também”.

O casal de jovens Gabriel Dellanegra e Rafela Lamas havia acabado de chegar, e apesar da fila, esperariam para tirar suas conclusões. Segundo eles, existe sim o interesse das pessoas para ver conteúdos artísticos e não faltam opções em São Paulo. “Hoje temos mais acesso, vejo que as pessoas têm mais opções, vindo pra cá vimos que existem várias outras exposições. A questão é tornar mais acessível, a região central da cidade é muito mais fácil se chegar, assim, as pessoas ao perceber que podem chegar sem muita dificuldade aderem”.

A estudante Rafaela Lamas acredita que o momento atual é propício para quem gosta de arte, com muitas oportunidades para conhecer mais. “Eu gosto muito de arte no geral, hoje existe uma abertura maior de amostras e arte em lugares acessíveis”.

Já para a aposentada Amélia Clementino, o que lhe chama atenção na obra do espanhol é a capacidade que possuía em transformar a realidade em imagens totalmente modificadas e fazer o interlocutor refletir. “É bastante difícil falar sobre Picasso, pois ele olhava para a realidade e modificava completamente, tem quadros que a gente fica procurando os detalhes, nos deixa atrapalhados na hora de olhar”. Contudo, Amélia ainda acha que o Brasil está longe de ser um país mais interessado em arte e museus. “Quando vou a outros países reparo que as pessoas estão sempre mais interessadas, por aqui os museus estão abertos, mas sempre vazios”.

Um fato curioso ocorrido no dia da abertura da exposição, com o curador da amostra, o espanhol Eugênio Carmona, foi quando um dos espectadores disse enxergar no famoso quadro de Picasso “O pintor e a modelo” de 1963 um judeu ortodoxo retratando Adolf Hitler, dessa forma, comprovando, antes de tudo, que a arte sem o uso da imaginação não é nada.


Veja também, Abertura da amostra Pablo Picasso e a Modernidade Espanhola

Imigração de árabes engrossam fileiras de refugiados pelo mundo

Conflitos e guerras no oriente médio espalham comunidade árabe por diversos continentes

Após a 2ª grande guerra mundial, a criação do Estado de Israel provocou imensa polêmica na região do oriente médio, e a partir disso, intensificaram-se os embates entre Palestinos e árabes na primeira metade do século XX.

Anos mais tarde, o mundo árabe sofreria uma verdadeira sacudida, a revolução Islâmica no Irã no fim da década de 1970, quando o então Aiatolá Khomenini subiu ao poder e destituiu o governo pró-ocidente de Xá Reza Palahvi, crescentes conflitos e insurreições populares surgiram em muitas nações.

Mesquita localizada no Bairro do Brás (Foto: Ronaldo Lages)
Um pouco mais tarde, dois países vizinhos muito influentes na região disputariam uma batalha sangrenta. O conflito que ficou conhecido como ‘Guerra Irã e Iraque’ teria seu começo em 1980 e só terminaria 8 anos depois, deixando inúmeros mortos e feridos entre civis e militares de ambos os lados.

Na mesma década, a então União Soviética ocuparia o Afeganistão e dali sairia derrotada no fim de seu já combalido regime.

Não somente esses conflitos, como também muitos outros forçariam milhões de cidadãos árabes a fugir de seus países e se refugiarem em continentes próximos.

A Europa, que já tinha seu imenso histórico de explorações no norte da África, recebeu e recebe milhares de imigrantes todos os anos, por exemplo, os argelinos na França que hoje possui a maior população de imigrantes árabes.

 A Mesquita foi  fundada em 1980        (Foto: Ronaldo Lages)
As já citadas guerras engrossariam a massa refugiada ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Esses foram alguns dos fatores que também colaboraram para a crescente onda de preconceito da comunidade europeia em relação aos imigrantes na Europa e causaria um possível sentimento de revanchismo.

E é isso, o que esclarece o cientista político e vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe (Ícarabe) José Farhat. “É evidente, principalmente quando se fala em países africanos, cujas fronteiras foram feitos de acordo com os interesses da França, existe um revanchismo por parte dos povos, não por parte dos governantes, porque os atuais governantes são a favor desses interesses.”

No Brasil, o clima é cordial, o povo brasileiro recebe muito bem os imigrantes estrangeiros em geral, exemplo disso, é o Libanês Said Fared de 43 anos e que reside há 16 por aqui. Para ele, a comunidade árabe é respeitada e vista como irmã e cidadã em nosso país. Entretanto, em outros lugares, só há respeito de acordo com a função que a pessoa desempenha naquela sociedade. “Os árabes na Europa sofrem um pouco de preconceito porque consideram nações terroristas, essas coisas, mas acho que não existe revanchismo. Entretanto, existem dois tipos de árabes por lá: os estudantes, que estão com o objetivo de estudar e conhecer as universidades. Geralmente, os europeus têm preconceito em relação a todos os imigrantes, não somente os árabes. Tenho muitos parentes que moram em países do velho continente e me contam que o tratamento que o Brasil dá em relação ao estrangeiro é diferente, aqui você se sente como brasileiro. Somos sempre bem-vindos, respeitados e bem-tratados”.

A primavera árabe trouxe mudanças positivas para o mundo árabe. De acordo com o cientista político José Farhat, o povo ainda é decisivo em prol de mudanças, nem que sejam a logo prazo nesses países. ”A primavera árabe teve sucesso no Egito, mas ainda tem reações, há poucas semanas atrás invadiram mesquitas, mataram gente, mas isso é uma reação a favor do regime anterior. Contudo, se não deu certo, por exemplo, na Síria, não significa que o povo não continue a lutar por ela. A primavera árabe não convém às potências ocidentais e dos Estados Unidos, estão sempre tentando derrubar tudo aquilo que é libertação nacional. Isso é claramente nítido”.

Reprodução da capa do polêmico Charlie Hebdo
A estudante de Direito e de família egípcia, Sanny Mohamed, viajou até o Egito e trouxe algumas de suas impressões sobre o pós-revolução, que segundo ela, mostrou a força da união, mas que também serviu de manobra política por parte de certos setores da elite daquele país. “A primavera árabe surgiu como um efeito dominó. Mostrou a força que um povo tem quando unido, só que no Egito não foi tão positiva, lá se cogita que a população tenha sido meramente usada pelos militares, da seguinte forma: Hosni Mubarak já havia escolhido seu filho para sucedê-lo, entretanto, este não era militar, isso gerou insatisfação por parte dos militares que fomentaram as primeiras revoltas que a população aderiu. O presidente que assumiu após Mubarak, Mohamed Mursi, também foi derrubado. No meu ponto de vista, a Primavera árabe ainda não rendeu flores”.

Com o atentado terrorista ao jornal francês Charlie Hebdo, as polêmicas se intensificaram, a xenofobia cresceu em muitos lugares da Europa. Apesar dos manifestos em prol da liberdade de imprensa, o jornal não teria avançado o sinal do bom-senso em relação à comunidade árabe? Neste ponto de vista, a estudante aponta possíveis erros de ambos os lados. “Acho que o direito de expressão deve ser respeitado, embora alguns tenham ferido crenças e religiões. Acho que isso não deve ser levado tão a serio pelos muçulmanos ao ponto de fomentar ainda mais esse ódio. Como muçulmana eu me senti ofendida, mas não cabe a nós muçulmanos aplicarmos tal sentença, uma retratação do jornal seria suficiente. Claro, deve haver um limite, mas um limite imposto talvez pelo próprio jornal, um pouco de bom senso, pois é complicado falar em limites quando se trata de liberdade de expressão. Os muçulmanos mais moderados não aprovaram os assassinatos, porque o caminho mais coerente é o diálogo.”

Capa da 1ª edição após o atentado (Charlie Hebdo)
O cientista político José Farhat vê com maior preocupação o episódio. Segundo ele, deve existir liberdade e respeito em relação a todas as religiões que existem. “A imagem para o Islã é algo criado por Deus, só quem criou o ser humano e sua imagem foi Deus, qualquer coisa relacionada a uma imagem significa se igualar a ele. Não existem representações humanas na arte religiosa islâmica porque Maomé aboliu antigos deuses e os abominou. Isso para o Islã é absolutamente inaceitável”.

Entretanto, Farhat, alerta: toda xenofobia em torno dos árabes na Europa é uma questão muito mais econômica do que religiosa. “A França na realidade não está perseguindo o muçulmano por ser ‘muçulmano’, estão perseguindo o trabalhado: argelinos, marroquinos, tunisianos, africanos ou asiáticos por estarem concorrendo hoje com o trabalhador francês, é uma questão econômica. Quando a economia francesa estava bem, independente de religião, não queriam nem saber de nada, chamavam os imigrantes para trabalhar. A questão não é muito religiosa, é muito mais econômica”.

Os conflitos e impasses são muitos, e neste exato momento estima-se que mais de 50 milhões de refugiados de diversas nacionalidades estão à deriva aguardando resposta de governos e instituições políticas até que alternativas sensatas sejam tomadas por elas.


Ronaldo Lages